segunda-feira, 17 de junho de 2013

MARIA

 (simplesmente)

Ela escolhia sempre o lugar mais desconfortável da camioneta  para se sentar
precisamente aqueles em que não se conseguia reclinar ou deitar...
e assim permanecia em vigília permanente
mas em silencio

Enquanto os restantes passageiros procuravam beber as ultimas gotas do sono
que aquela hora da manhã ainda se condensavam no lusco fusco das janelas
no meio do sossego daquela espécie de dormitório em que se tornava o semi-deserto autocarro

Ela assim permanecia
desperta e imóvel
de olhos bem abertos, quase assustados

sem que para isso tivesse de recorrer à conversa fácil das actualidades com o motorista
ou outro passageiro qualquer

e assim se mantinha sempre durante toda a viagem
naquela sua espertina
feita de quietude e silencio

Mas a verdade é que aquela elegantíssima esfinge
erecta no meio dos restantes corpos displicentemente recostados
não era a única alma desperta
para alem do condutor
que (ainda) assim nos prendia ao fio da vida naquele veiculo em transito

Pois havia quem tardasse em se conseguir reconciliar
com aquele ultimo sono reparador
da angustia do acordar sempre antes do despertador
em que se tinha convertido o seu madrugar

Isso
ou a intrigante imagem
que aquela bela e esbelta figura
conseguiam deixar visualmente impressa
num cerebro matinal

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